História da Comuna de 1871, de Prosper-Olivier Lissagaray

Tradução de Ana Barradas, revisão de Francisco Martins Rodrigues
Edições Dinossauro, 1998

História da Comuna

A Comuna de Paris é um daqueles episódios da história moderna acerca dos quais, estranhamente, parece haver hoje pouco para dizer. Tão pouco, que esta História da Comuna de 1971, universalmente reconhecida como um clássico da revolução proletária parisiense, só em 1998 teve direito a edição portuguesa.

Ocorre naturalmente perguntar porquê. A resposta, parece-nos, está em certos mecanismos de cen­sura que a democracia burguesa  não teve força para destruir. A história da Comuna é a história dum tremendo genocídio cujos autores são respeitáveis guardiões da lei, da ordem e da religião e cujas vítimas são trabalhadores inermes, que apenas cometeram o “crime” de sonhar com a República social. Como é bem conhecido, entre nós os corações da gente educada não palpitam facilmente pelos dramas de sapateiros, lavadeiras e soldados, sobretudo quando estes têm a insolência de se insur­gir contra a ordem estabelecida. A história da Comuna de Paris tornou-se assim, por consenso geral, material pouco vendável, o que tem a sua comodidade – não é necessário pronunciarmo-nos sobre aquilo que “ignoramos”.

Prosper-Olivier Lissagaray nasceu em 24 de Novembro de 1838 no seio duma família basca burguesa. Instalado em Paris em 1860, lança-se ardorosamente na batalha da propaganda dos ideais republicanos e socialistas, o que lhe vale um rosário de processos por “ofensas” e “incitamento ao ódio”. Implantada a República, regressa da Bélgica onde se refugiara e é nomeado por Gambetta comissário da Guerra em Toulouse. Mas a revolução precipita-se; Lissagaray está em Paris no 18 de Março de 1871 e toma sem reservas partido pela Comuna que serve como jornalista no L’Action e no Tribun du Peuple. Nas jornadas de Maio, bate-se nas barricadas até ao derradeiro alento da resistência, logrando escapar milagrosamente aos massacradores. Julgado à revelia e condenado a deportação numa fortaleza, vive os nove anos seguintes no exílio, até ser decretada a amnistia.

Em Bruxelas e mais tarde em Londres (onde frequenta a casa de Marx, e com cuja filha Eleanor terá estado prestes a casar) recolhe febrilmente documentação e depoimentos para a obra a que irá consagrar os 25 anos seguintes, quase todo o tempo de vida que lhe resta: historiar os acontecimentos, desmontar a teia de calúnias com que a burguesia francesa e europeia insulta o governo da Comuna, dar testemunho dos crimes hediondos cometidos pelas tropas versalhesas sob as ordens de Thiers.

Publicada numa primeira versão em Bruxelas em 1876, a História da Comuna de 1971 sai em versão definitiva e bastante ampliada vinte anos depois, já em Paris. Esgotada e reeditada várias vezes, consagrou-se, pela sua escrita apai­xonada e pelo seu rigor, como a obra clássica sobre a Comuna de Paris.

É, antes de mais, a obra dum grande jornalista. Ao primeiro contacto, o leitor fica mergulhado nos acontecimentos, presencia o tumulto da revolta, as manifestações de rua, os debates acalorados, os combates. Lissagaray recolheu com escrúpulo irrepreensível todos os elementos para reconstituir o drama (em que, de resto, tomou parte activa) e nos restituir a sua lógica interna. O livro resulta assim num testemunho impressionante pela ausência total de artifício, pela seca exactidão das informações, pela tensão dramática com que se caminha para o desenlace.

Lissagaray chega ao ponto de descrever em detalhe as operações militares, reproduzir actas de reuniões, referir inúmeros personagens cujo papel hoje nos é desconhecido – e com isso a obra pode resultar sobrecarregada para o leitor actual que apenas busque um conhecimento geral dos factos. Mas é esse rigor que lhe permite fundamentar as apreciações políticas certeiras, duma lucidez exemplar, e trazer-nos até ao presente a Comuna como uma das maiores aventuras criadoras da classe operária, ainda hoje viva e esperando continuidade.

Poderá causar estranheza a severidade com que o autor enumera os erros do governo da Comuna, quando diz em contrapartida tão pouco sobre as suas realizações sociais, assim como o angustiante pormenor com que se alonga sobre o banho de sangue da Semana Sangrenta. Quem abordar o livro na expectativa dum retrato optimista da Comuna corre o risco de ficar desapontado; trata-se antes do relatório duma catástrofe. Mas foi isso justamente o que Lissagaray pretendeu. Ao relatar, dia a dia, quase hora a hora, a resistência, os erros e a morte da Comuna, ele quis transmitir o crime horroroso a que acabara de assistir e que toda a sociedade organizada procurava fazer esquecer: as barricadas destruídas a canhão, os prisioneiros assassinados, homens, mulheres e crianças, o saldo de 20 mil fuzilados, 40 mil presos, milhares de deportados. Acaso se pode ficar indiferente a este gigantesco matadouro humano? Como ele mesmo escreveu, “só quem se deixou incendiar por essa chama saberá descrevê-la”.

Lissagaray conservou assim da Comuna a mensagem que é talvez mais importasse reter: a necessidade de, uma vez iniciada a insurreição dos pobres, não guardar a mínima ilusão ou vacilação face aos poderes estabelecidos, a urgência de os pôr em inferioridade e de os bater resolutamente. Durante setenta dias, os operários parisienses batem-se contra os assaltantes, muito superiores em número, que os bombardeiam a canhão. Não há um comando militar central, nem um plano comum de defesa porque tal não cabia nas suas noções de autonomia. Morrendo à fome, respeitam religiosamente os milhões deposi­tados no Banco de França. Desejosos de convencer pelo exem­plo, permitem que os reaccionários, a sua imprensa e os seus padres conspirem livremente dentro da cidade.

Nisto como em tudo o mais, a Comuna foi vítima da sua infantilidade. “Era como uma caldeira de máquina cujo vapor se escapasse por cem saídas”. Os que mais tarde e ainda hoje censuram com pedantismo a centralização leninista na revolução russa esquecem voluntariamente a lição que os explorados receberam com a derrota da Comuna. Foi uma lição prática do que não se deve fazer em caso nenhum, já que o inimigo não tem contemplações nem piedade, não hesita perante as piores infâmias, não recua perante o massacre de homens, mulheres e crianças.

Já se tem tentado lavar esta mancha com a alegação de que se estaria perante uma situação excepcional de cegueira colectiva, causada pela catastrófica derrota da França face ao invasor prussiano. Mas como também já foi observado, o desencadeamento maciço de ferocidade, as execuções sumárias a cada esquina, a punição “exemplar” que se abate sobre os sobreviventes, só se entendem como um ajuste de contas friamente planeado. O massacre dos comuneiros não é um momento de loucura de um punhado de reaccionários; pelo contrário, é uma daquelas raras “horas da verdade” da luta de classes, quando vem ao de cima o ódio latente dos que per­manentemente vigiam, com um misto de desprezo e receio, aqueles sobre cuja desgraça constroem os seus privilégios.

Só esse furor colectivo duma classe que reage cegamente à ameaça ao seu estatuto permite compreender que, na época, escritores, artistas e intelectuais tenham coberto os mártires de insultos. À excepção de Courbet (adepto activo da Comuna e condenado por isso), de Rimbaud, de Verlaine, e até certo ponto de Victor Hugo, a grande maioria reagiu com uma explo­são de ódio que ainda hoje espanta. Dumas filho gabava-se de estudar “a zoologia destes revolucionários” “cujas fêmeas se assemelham a mulheres quando estão mortas”. Mesmo sem chegar a essa baixeza, grandes escritores como Alphonse Daudet, George Sand, Flaubert (“acho que se devia ter condenado às galeras toda a Comuna”), Zola (“loucura”, “bestialidade”, “pesadelo demencial”), Théophile Gautier (os “animais ferozes”, os “gorilas da Comuna”), aplaudem a repressão e dão crédito às mais absurdas calúnias contra esses operários que ousavam assenhorear-se da “sua” Paris.

Porquê esta febre de vingança? Quais foram os crimes da “canalha” à solta?

A Comuna de Paris é mais que uma insurreição. É o surgimento de um princípio novo, a afirmação de uma política nunca vista. Iniciada sob o signo da defesa da República, evolui irresistivelmente para a busca do socialismo, porque é esse o alvo natural da revolução proletária. Considera que o Estado deve emanar directamente do povo e manter-se sob seu permanente controlo. Baseia-se na gestão colectiva, na supressão do exército permanente, na eleição dos altos fun­cionários, na igualdade entre os salários dos operários e dos funcionários públicos. Separou a Igreja e do Estado e laicizou o ensino.

Os membros da Comuna defendiam a colectivização dos meios de produção, condição prévia à igualdade social (o que não os levou a expropriar precipitadamente a propriedade privada). O trabalhador devia beneficiar por inteiro do produto do seu trabalho. O programa redigido pelos representantes da Internacional e os delegados da Câmara Federal das Sociedades Operárias declarava: “A independência da Comuna é o garante de um contrato cujas cláusulas livremente discutidas farão cessar o antagonismo das classes e assegurarão a igualdade social. Reivindicamos a emancipação dos trabalhadores e a delegação comunal é garantia disso, porque deverá propor­cionar a cada um dos cidadãos meios para defender os seus direitos, controlar de uma forma eficaz os actos dos seus mandatários encarregados da gestão dos seus interesses e determinar a aplicação progressiva das reformas sociais.”

A sociedade que se pretendia criar devia promover a autonomia da comuna sem romper a unidade nacional, mas substituindo o centralismo, essencialmente autoritário, pela união livremente consentida. Esperava-se que esta união por associação desse origem à federação e por isso os adeptos da Comuna se designavam a si próprios orgulhosamente como “os federados”.

Apesar da política de terra queimada ordenada por Thiers aos funcionários que se retiraram para Versalhes, a administração funcionou sob as ordens da Comuna com um sexto dos efectivos habituais, e apoiando-se nos funcionários semiproletários. A Comuna fixou o limite dos salários mais elevados em 6000 francos por ano e aboliu o juramento político. A intenção, que não foi posta em prática, era confiar os postos-chave a cidadãos eleitos pelo povo, respondendo perante ele e destituíveis por ele.

No plano social, o programa dos proletários reivindicava: “A organização do crédito, da troca e da associação, a fim de assegurar ao trabalhador o valor integral do seu trabalho. A instrução gratuita, laica e integral. O direito de reunião e associação, a liberdade absoluta da imprensa, bem como a do cidadão. A organização numa perspectiva municipal dos serviços de polícia, das forças armadas, da higiene, da estatística, etc.”

Muitos anos mais tarde, uma professora primária, uma heroína da Comuna, Louise Michel, escreveria no regresso da deportação: “Tempos melhores virão, com alegrias que as pessoas de hoje não são capazes de imaginar… Depois da nossa época atormentada, virá o tempo em que homens e mulheres caminharão juntos pela vida fora, como bons companheiros, e será posta de parte a discussão sobre qual dos sexos é mais forte ou qual das raças do mundo prevalece sobre as outras”. Só um acontecimento muito excepcional poderia inspirar tais palavras.

Confrontados com as dificuldades insuperáveis que acarretaria a edição integral da obra (520 páginas na última edição francesa), os responsáveis pela edição da obra em Portugal optaram por eliminar na tradução o extenso prólogo do autor, sobre os antecedentes, assim como os dois capítulos finais, referentes à deportação, e os numerosos apêndices com notas, que tornariam a obra dum custo proibitivo. Cabe contudo sublinhar que nenhuns cortes foram feitos no corpo da obra, que é reproduzida na sua estrutura original. Para permitir uma visão global das transformações iniciadas pela Comuna, resumiram numa pequena cronologia final os principais actos do seu governo e acrescentaram-lhes uma bibliografia. No conjunto, ofereceram ao leitor uma versão escrupulosa, que não desmerece da obra imortal de Lissagaray.

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